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Fome oculta livre-se dessa traiçoeira

O distúrbio, caracterizado pela carência de nutrientes, pode acometer até quem tem excesso de peso, além de ser uma das grandes causas do efeito sanfona.
Por: Ivonete Lucirio

A fome oculta é cruel. O estômago não ronca, mas ela está lá, escondida, minando as energias do organismo. Para descobrir como funciona seu mecanismo, primeiro é preciso entender a diferença entre fome e apetite. Apetite é a vontade que a gente tem de comer algo, seja uma picanha, uma mexerica ou um doce. Isso ocorre independentemente do organismo estar saciado. Fome é outro tipo de manifestação. Ela indica que o organismo precisa de algum tipo de nutriente para funcionar bem, seja para equilibrar a glicemia - concentração de glicose no sangue ou para ganhar energia.
A fome oculta acontece quando o organismo necessita de algo para funcionar adequadamente, mas a alimentação do dia a dia não cumpre seu papel de forma eficiente.

"Estamos falando aqui de micronutrientes, que são vitaminas e minerais, e não de macronutrientes como proteínas, carboidratos e gorduras", explica a nutricionista Inty Davidson, de São Paulo. Ou seja, a pessoa geralmente consome a quantidade ideal de calorias para viver - ou até mais -, mas estas não vêm carregadas de nutrientes que garantem o bom funcionamento de todos os sistemas. Pois é, infelizmente o corpo não é tão sábio, no geral, a ponto de indicar exatamente o que ele precisa.
"Uma pessoa que tem falta de selênio, por exemplo, envia um estímulo nervoso ao cérebro, que deveria entendê-lo e interpretá-lo como vontade de comer nozes ou castanha-do-pará. Mas não é o que acontece. O organismo entende o estímulo apenas como fome, sem decodificar que precisa de uma substância específica", explica Douglas Carignani, médico ortomolecular do Instituto de Medicina Biomolecular, em São Paulo.

Obesos mortos de fome

O resultado de tal processo? A portadora desse distúrbio acaba comendo qualquer coisa e, na maioria das vezes, itens engordativos. E o pior: não dá ao corpo o que ele realmente necessita naquele momento. Ou seja, o organismo fica desnutrido mesmo que a pessoa esteja acima do peso. Vale lembrar, também, que a fome oculta é bastante comum nos obesos. "Isso porque a alimentação de quem trava uma luta ferrenha contra a balança é marcada principalmente por alimentos ricos em carboidratos simples e gorduras, com baixo teor de vitaminas e minerais", explica a nutricionista Natália Dourado, da Nutricêutica Alimentos Funcionais, em São Paulo. A fome oculta é também uma das grandes responsáveis pelo temido efeito sanfona. "Normalmente as dietas de emagrecimento são de exclusão, ou seja, proíbem o consumo de determinado alimento, como carboidratos ou gorduras, por exemplo. Quando a pessoa alcança o peso ideal e abandona o regime, o corpo começa a dar os sinais de que precisa de nutrientes específicos. O mais comum, no entanto, não é consumi-los de forma correta e sim buscar chocolates, pães e biscoitos. Então, engorda-se tudo novamente", descreve a nutróloga Jane Corona Viveiros de Castro, de São Paulo.

As armadilhas estão no dia a dia

Ao contrário da fome convencional, que deixa um buraco no estômago, a fome oculta é difícil de perceber. Normalmente a pessoa come, come, come e nunca fica satisfeita. Duas horas depois do almoço, sente que precisa beliscar algo. Sim, essa voracidade sem fim já foi tabulada pela Organização Mundial da Saúde - hoje se estima que 25% da população sofra desse mal que pode acometer diferentes perfis de pessoas.
Como, por exemplo, aquela mulher que começa a praticar uma atividade física intensa sem mudar os hábitos alimentares. Ou seja, o organismo está preparado para trabalhar com uma demanda de nutrientes. "De repente, aumenta-se o gasto calórico e a ingestão de micronutrientes se mantém. O resultado dessa equação só pode ser um quadro de desequilíbrio", lembra a nutricionista Andréa Ramalho, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Por isso, o correto é consultar um especialista que possa indicar uma dieta adequada àquele tipo de atividade.
Você faz parte do time que julga estar fazendo tudo certinho, já que mergulha diariamente num megaprato de salada? Então atenção, pois pode muito bem estar desnutrida. Isso mesmo! O fato é que certos alimentos atrapalham a absorção de alguns nutrientes. O leite e seus derivados, por exemplo. Ao comer uma quantidade generosa de folhas verdes ricas em ferro, deixe o queijo de lado, porque o cálcio presente nele dificulta a absorção do mineral. Por outro lado, um belo copo de suco de laranja é um ótimo aliado, já que ele potencializa tal absorção.
Como já deu para perceber, o corpo tem lá seus melindres. E não adianta se entupir de cápsulas de vitaminas e minerais. Isolados, nem sempre eles têm o efeito desejado. E o que é pior, em excesso, podem sobrecarregar os rins e o fígado.
A receita contra a fome oculta, assim como para tudo que é bom para o organismo, é o equilíbrio. Trocando em miúdos: frutas, verduras e legumes garantem os minerais que o corpo precisa para funcionar bem enquanto as proteínas, gorduras e carboidratos, a energia necessária.

Os principais sintomas

Quando o organismo começa a ficar debilitado é sinal de que a falta de nutrientes já é importante. Saiba agora como a fome oculta costuma se manifestar Falta de ferro: cansaço, sonolência, baixa do sistema imunológico, baixo desenvolvimento intelectual (em crianças) e palidez, principalmente na parte interna das pálpebras.
A anemia afeta entre 30% e 50% das crianças menores de 5 anos e 25% das mulheres em idade fértil no Brasil. Falta de iodo: bócio, aumento do volume da glândula tireoide (levando à formação de um papo).
Hoje, o sal de cozinha é acrescido de iodo exatamente para combater esse tipo de doença. Falta de vitamina A: a complicação mais comum é a xeroftalmia, doença ocular que causa dificuldade de adaptação da visão a pouca luz, levando à cegueira noturna.

Falta de ácido fólico: é especialmente grave nas gestantes, podendo levar à má formação do feto.
"Há cerca de dez anos procurei a Meta Real, um programa de emagrecimento. Estava de dieta há meses e não conseguia perder peso. Conversando com a nutricionista, identificamos o problema, que na época nem recebia o nome de fome oculta, mas fome de nutrientes. No café da manhã consumia um pãozinho com manteiga, leite desnatado com chocolate e uma maçã. No almoço e no jantar, comia arroz, bife, salada de alface e tomate. De sobremesa, outra maçã. A princípio parece até uma dieta saudável. O fato é que esse menu se repetia dia após dia... não havia variações. Vivia com fome. Acabava de comer e uma hora depois já sentia o estômago vazio. Sem contar que sempre estava cansada e desanimada. A nutricionista mudou meu cardápio. Um dia na semana até podia investir na minha antiga alimentação. Mas nos outros fui me habituando a comer grãos, outras frutas e verduras diferentes.
O final dessa história é bem feliz: perdi 20 quilos em dois anos e hoje tenho um cardápio variado, que me garante energia e disposição."

 
Fonte: Revista Dieta Já- Edição 188

 
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